Cuidando do cuidador

Boa tarde a todos!

Nesse último sábado, o Projeto Terapêutico Toque Divino acompanhou a equipe de Capelania Hospitalar do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, sob a liderança pastoral da Igreja Batista do Morumbi em São Paulo

Tivemos a leitura de um texto bíblico, cânticos e louvores, ouvimos o Clauber Carrenho, Presbítero da IBMorumbi, falar uma palavra aos cuidadores, antes das conversas e as orações da equipe de Capelania com alguns deles, cuidadores e pacientes.

Isso me fez lembrar o tempo em que participei de um curso promovido pela PUC-SP|COGEAE chamado “Cuidando do Cuidador”, com o Professor Adalberto Barreto, Ph.D, criador da Terapia Comunitária, muito interessante e útil.

Na saída, minha esposa me disse: “amado, você poderia escrever algo sobre os cuidadores agora”.

Hoje eu gostaria de lhes falar algo sobre esse assunto.

Oferecer cuidados para alguém é a prova de fogo que revela a exata medida do amor que nos alcançou.

É com o amor com que aprendemos a nos tratar que tocamos o outro quando ele precisa de nós.

E isso pode ser algo complicado demais, pois há abraços que nos repelem e há disciplinas que nos acolhem.

Uma ferida não curada em mim, fere o outro de quem me aproximo sem eu perceber.

Ferimos o outro desse modo para sermos curados. Isso é inconsciente e involuntário.

Os Psicólogos ou Médicos da Alma são aqueles que recebem esse tipo de dano em si e, ancorados nas fontes da vida, sobrevivem e continuam de pé para a cura do paciente.

O processo psicoterapêutico acontece em etapas.

Primeiro o acolhimento do Psicoterapeuta leva o paciente ao lugar do trauma.

Trauma é um evento emocionalmente danoso a partir do qual a pessoa passa a suprimir alguma de suas funções vitais por meio de tensionamentos psicofísicos involuntários gerados pela ausência de condições de acolhimento e manejo psicológico nas pessoas em redor que a conduzissem para a elaboração dessas feridas no momento em que aconteceram, deformando, assim, a atitude básica de amor e aceitação dessa pessoa para consigo mesma e instalando em seu lugar algum tipo de autopunição psicofísica para evitar o contato com o conteúdo psicológico perturbador não elaborado conscientemente.

Então, o paciente faz com o Psicoterapeuta exatamente aquilo que ele fez consigo mesmo a partir daquele evento ruim que aconteceu no passado.

Se o Psicoterapeuta sobreviver, permanecendo íntegro e fiel sem vacilar apesar da dor, rejeitando dar lugar ao estado de mente nocivo e dando um novo desfecho para a história de violência que o paciente aprendeu a repetir contra si mesmo, então o paciente é curado, pois aprende pelo exemplo a retornar e permanecer no amor na lida consigo mesmo haja o que houver.

É a bondade da qual tomamos parte no trato conosco que temos para dar ao outro, nada mais, nada menos.

Se aprendemos a nos tratar como algo sagrado, então o outro é algo sagrado e lhe faremos o bem, mas se aos nossos próprios olhos não somos mais do que um objeto a ser defraudado por motivos de ocasião, então o outro é um objeto assim também e seremos negligentes e cruéis com a pessoa autêntica do outro quando ela precisar de nós.

Se nos tratamos como se fôssemos empecilhos em nosso próprio caminho, então o outro também é para nós um empecilho no nosso caminho.

Se somos uma chateação aos nossos próprios olhos, então o outro também é uma grande chateação para nós.

Ter que cuidar do outro é descobrir em que pé estamos em relação à nós mesmos, ao nosso autentico ser subjetivo.

Qual é a dureza divina, o núcleo sagrado, a fonte essencial de você mesmo?

Como você tem tratado você mesmo, seus sonhos, suas orações, suas dores e seus anseios profundos?

Se pelas suas próprias mãos não flui amor, acolhimento e suporte sincero a você mesmo, então seu consolo é raso e seu abraço doloroso. Melhor não tocar em ninguém.

Para construir algo permanente é preciso abandonar a falsidade e começar do lugar real.

Onde estão suas emoções verdadeiras? Qual é o trabalho da sua vocação interior? Você é capaz de se ver como quem está diante de algo sagrado? Você é uma das testemunhas da beleza que mora em você?

O melhor começo para uma nova construção é um primeiro tijolo concreto. Um princípio real é o melhor lugar do mundo para se começar uma nova jornada, pois permanecer em um falso lugar é afastar sua vida de um destino realmente sustentável e bom.

Aos corajosos haverá uma coroa de glória no fim: quem ajudar a si mesmo um dia ajudará o seu próximo.

Cuidar do outro é o fruto de uma mente grande, crescida, amadurecida e reconciliada.

Cuidar do outro é a consequência natural de quem faz o trabalho difícil de socorrer, defender, validar e exaltar o pequenino íntegro que mora ai dentro de si.

Cuidar do outro é o fruto natural para quem procura, acha e guarda dentro de si mesmo a sua pérola de grande valor.

Coragem! Ninguém ficará vazio e sozinho por deixar ilusões e assumir responsabilidades em sua vida.

Seus sonhos profundos trazem o melhor para todos nós; sua coragem responsável constrói um mundo melhor para nós; sua vida inteira é o que o faz cuidador de mim.

Esse é o toque bom de receber. Pode sempre cuidar de nós.

Atenciosamente,

Dr. Rafael Caldeira de Faria, Psicólogo Corporal, CRP 06/89471, e o Fundador do Projeto Terapêutico Toque Divino.

2 pensamentos sobre “Cuidando do cuidador

  1. “Uma ferida não curada em mim, fere o outro de quem me aproximo sem eu perceber.”

    Ser cuidador requer deixar primeiro curar-se. Creio que as vezes o cuidador é elegido por um golpe de estar disponível e sem “fazer” nada e por isto é eleito para ser o cuidador de alguém.

    Mas, a verdade é que somente quem se deixa curar pode ser agente de cura na vida de alguém.

  2. Faço das palavras da Cibele, as minhas também… E compartilho da mesma experiência como cuidadora… “Um susto para minha imaturidade”, e acrescento que nessas ocasiões é que se fazem valer alguns princípios, como por exemplo: “Melhor serem dois do que um, porque tem melhor paga do seu trabalho”..

    Uma pessoa “sem preparo”, numa posição como esta, corre o risco de adoecer facilmente… Glória à Deus por ser nosso “socorro bem presente em horas de angústia”.

    E também louvado seja Deus, que cuida do cuidador que se dispõe em amor… Apesar da incapacitação.

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